Depois de viajar de moto a San Pedro de Atacama e a Antofagasta, no Chile, embarcamos numa excursão pela Bolívia passando por lagoas com flamingos e chegando até o Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo.
Distância percorrida de moto até aqui: 4.905 km
Excursão à Bolívia em van de turismo:
Dia 21 — Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa
Dia 22 — De Villamar Mallcu a Colcha K
Dia 23 — Salar de Uyuni e volta a Villamar Mallcu
Dia 24 — Regresso a San Pedro de Atacama
Sem moto na Bolívia
O país mais pobre da América do Sul, a Bolívia, é também um dos mais fascinantes para se visitar, com uma rica diversidade natural e cultural. Eu havia escalado grandes montanhas na Bolívia na década de 1990. Mas não conhecia o sul do país, onde fica o Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo, além de inúmeras lagoas com milhares de flamingos e vulcões que passam de 6 mil metros de altitude.
Depois de viajar de moto até San Pedro de Atacama e Antofagasta, no Chile, em 2024, eu e meu amigo Fábio decidimos conhecer o Salar de Uyuni e outras atrações do sul da Bolívia. Embora seja possível visitar o país de moto, isso implica restrições. Vejamos algumas delas:
- Há uma vasta área sem postos de combustível no sul da Bolívia. Os carros, lá, costumam levar galões de gasolina amarrados ao teto. De moto, seria preciso manter-se nas estradas principais. Assim, perderíamos muitas das atrações da região, que só são acessíveis por estradinhas secundárias onde não há postos de combustível.
- Em 2024, muitos postos não vendiam combustível para estrangeiros. Isso começou a mudar no início de 2026, com o fim do subsídio aos combustíveis no país.
- As estradas são desafiadoras para motos, com longos trechos de areia fofa e pedras soltas.
- Os policiais bolivianos são notoriamente desonestos. Praticamente todas as pessoas que viajam com seus veículos no país acabam sendo extorquidas em diversos momentos.
- A burocracia nas fronteiras bolivianas é complexa; erros na documentação podem levar à apreensão do veículo.
Por causa da dificuldade em cruzar a fronteira de carro, as excursões à Bolívia que partem do Chile empregam dois veículos. O primeiro, um microônibus chileno, leva os turistas até a fronteira. Os viajantes, então, cruzam a fronteira a pé e prosseguem num segundo carro, um 4×4 com placa boliviana. Na volta, a troca de veículos se repete. Assim, as agências de turismo reduzem as complicações burocráticas na fronteira.
Considerando tudo isso, decidimos deixar as motos estacionadas em San Pedro de Atacama e seguir para a Bolívia numa excursão turística. Foi uma boa decisão.

Paso Hito Cajón
No dia de nossa partida para a Bolívia, um microônibus nos apanhou bem cedo na pousada em que estávamos em San Pedro de Atacama. A subida até o passo fronteiriço Hito Cajón (ou Portezuelo del Cajón), a 4.480 metros de altitude, leva cerca de uma hora. Tínhamos descido por essa estrada, a Ruta 27, quando viemos da Argentina de moto, alguns dias antes. Partindo de San Pedro, a Ruta 27 segue para leste e passa ao sul dos vulcões Licancabur e Juriques, subindo gradualmente em direção ao passo.
Quando chegamos lá, já havia uma fila de vans de turismo esperando a abertura da fronteira, que funciona das 8:00 às 23:00. Enquanto aguardávamos, o motorista nos serviu um ótimo café da manhã, incluindo o que ele descreveu como “o melhor pão de San Pedro de Atacama”.
Cumprida a burocracia chilena, atravessamos a fronteira caminhando. No outro lado, nos esperava um simpático motorista boliviano que, durante três dias, seria também nosso guia de turismo, fotógrafo e cozinheiro (infelizmente, esqueci o nome dele). O carro era uma Toyota Land Cruiser 2004 com a indispensável tração nas quatro rodas. Apesar dos vinte anos de uso, o veículo estava em bom estado e não tivemos problema com ele.
O motorista já havia despejado, no tanque, o conteúdo dos dois galões de 20 litros que levava no teto, repondo a gasolina que havia gasto para vir da cidade de Uyuni até a fronteira. Ele nos explicou que levava apenas dois galões porque aquele carro havia sido equipado com um segundo tanque de combustível. Outros veículos de turismo transportavam três ou quatro galões no teto.
A bordo, além de Fábio e eu, iria um casal de franceses — Cédric e Aude — que nos acompanhariam nos passeios. Eles estavam fazendo uma viagem de dois meses por vários países da América do Sul. Como éramos apenas quatro viajantes, pudemos acomodar nossa bagagem no porta-malas. Mas notamos que outros veículos levavam até seis turistas, com a bagagem amarrada no teto.
O Deserto de Salvador Dalí

O trecho inicial do nosso percurso na Bolívia atravessava a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa. É uma grande área desértica com pequenos povoados e umas 60 operações de mineração. A reserva recebe 40 mil visitantes por ano, a maioria em excursões como aquela em que estávamos.
Esses turistas vão em busca da paisagem andina, das espetaculares formações rochosas e da fauna local. Ela inclui aves como o condor, vários falcões, o ganso andino, diversos patos selvagens, o ñandú petiso (parecido com a ema brasileira, mas menor) e três espécies de flamingos. Dos mamíferos, vimos apenas as onipresentes vicunhas. Mas os administradores do parque dizem que há 23 espécies de mamíferos lá, incluindo pumas, raposas e viscachas (parentes das chinchilas).
Depois de cruzar o passo Hito Cajón, seguimos para o norte acompanhando a fronteira com o Chile. A primeira atração turística que visitamos foi a Laguna Blanca, a uns 10 km da fronteira. Em seguida, fomos à vizinha Laguna Verde. Ambas ficam ao pé do vulcão Licancabur, formando uma paisagem bastante atraente. Pelo que me contaram, a maioria das ascensões ao Licancabur é feita pelo lado boliviano, subindo-se a rampa que começa na sela entre esse vulcão e seu vizinho Juriques. É um caminho tecnicamente fácil, ainda que fisicamente exigente por causa da altitude.
Rodando mais uns 40 km, atravessamos o que os bolivianos chamam de Deserto Salvador Dalí, uma área com formações rochosas que lembram esculturas espalhadas pelo Altiplano. Uma coisa que nos incomodou é que os veículos de turismo estragam bastante o ambiente. Como as estradinhas são muito precárias, os motoristas ficam buscando caminhos alternativos em vez de se manter naqueles já existentes. Assim, as marcas de pneus vão se multiplicando pela superfície desértica.
A laguna dos flamingos
Chegamos, então, às Termas de Polques, com duas agradáveis piscinas de água quente construídas numa encosta suave. Fizemos uma longa parada lá para aproveitar as piscinas e almoçar. A leste, víamos o Salar de Chalviri e a Laguna Salada. Prosseguimos à tarde até os Geisers Sol de Mañana, um grande conjunto de fumarolas vulcânicas. Alguém havia acoplado um tubo a uma delas, de onde saía um forte jato de vapor com um ruído que lembrava uma turbina de avião. Ali perto, vimos as instalações de um projeto de aproveitamento de energia geotérmica.

Nossa próxima parada, a uns 30 km dos geisers e a uns 100 km da fronteira, foi a Laguna Colorada, a 4.280 metros de altitude. Essa foi a lagoa mais interessante que visitamos naquela viagem. Para começar, a água é avermelhada, contrastando com o céu azul e com a escassa vegetação que, na margem, tinha um tom verde claro. Nessa lagoa, vivem 30 mil flamingos de três espécies — flamingo andino, flamingo chileno e flamingo de James. Eles tendem a ficar perto da margem, onde a água é rasa, o que permite observá-los de perto. Alimentam-se de algas, pequenos moluscos, crustáceos e larvas de insetos.
Além dos flamingos, há manadas de vicunhas no entorno da Laguna Colorada e alguns condores que voavam sobre nós. Uma trilha que segue pelo alto de uma elevação próxima oferece uma vista panorâmica do lago e da fauna local. Outra trilha acompanha a margem, proporcionando uma visão mais próxima dos animais.

Passamos a noite em Villamar Mallcu, uns 70 km adiante. A vila, com apenas 250 habitantes, tem diversas pousadinhas rústicas. Fica num vale com manadas de lhamas e plantações de quinoa, o vegetal mais cultivado naquela região. Em volta, há pequenos cânions e trilhas que sobem nos morros. Poderia ser um lugar sensacional. Mas havia lixo nas ruas e nas trilhas próximas; e a própria vila, bastante pobre, não é um lugar realmente agradável. Como é um ponto de parada estratégico para quem viaja por lá, suponho que vá se desenvolver com o tempo. Calculo que rodamos uns 180 km nesse dia.
A Copa do Mundo e a Itália Perdida
No segundo dia de nossa excursão turística pelo sul da Bolívia, partimos cedo do vilarejo de Villamar Mallcu e prosseguimos em direção ao Salar de Uyuni, ao norte. Visitamos formações rochosas que recebem nomes como Copa do Mundo e Itália Perdida. Subimos em algumas delas para observar a paisagem do alto. Em vários momentos, imaginei que seria muito bom circular com meu próprio carro por aquela região e acampar ao pé das formações rochosas, observando as estrelas no céu do deserto. É um bom projeto para uma viagem futura se tivermos coragem de enfrentar a burocracia e os policiais desonestos da Bolívia.
Na Laguna Vinto, paramos mais uma vez para observar e fotografar os flamingos. Seria a última lagoa com flamingos que encontraríamos nessa viagem. Seguimos, então, para a Laguna Catal, também chamada de Laguna Misteriosa. Lá, andamos bastante sobre as formações rochosas que cercam o lago, que fica meio escondido entre elas. Havia muitos turistas nesse lugar, quase todos em excursões vindo do Chile. No final, almoçamos no vilarejo próximo, onde havia grandes manadas de lhamas. É uma área que mereceria ser mais bem explorada, já que existe um labirinto de desfiladeiros e afloramentos rochosos atraentes a oeste do vilarejo.

Rumo ao Salar de Uyuni
Depois do almoço, fomos para o Desfiladeiro Anaconda (também chamado de Cañon de Alota). Paramos num mirante para observar e fotografar esse vale. No fundo dele, há uma estradinha vindo do norte e algumas poucas casas. É outra área que poderia ser mais bem explorada. A última parada do dia foi no vilarejo de Julaca, onde provamos cervejas artesanais bolivianas, algumas delas feitas de quinoa em vez de cevada. Julaca, com apenas 66 habitantes, fica a 3.665 metros de altitude, ao lodo de uma antiga ferrovia. É outra parada estratégica para quem viaja pela região.
Seguindo rumo ao Salar de Uyuni, passamos por uma lagoa que estava quase seca. Nosso motorista nos disse que aquilo era resultado da mineração. A Bolívia tem as maiores reservas de lítio do mundo. Só no Salar de Uyuni, calcula-se que haja 21 milhões de toneladas desse mineral. No país inteiro, são 23 milhões. Embora a Bolívia não esteja, ainda, entre os dez maiores produtores, a extração do lítio vem se expandindo rapidamente no país e vem deixando cicatrizes. Organizações ambientalistas relatam casos de contaminação de água potável e outros problemas causados por uma mineração que nem sempre segue as melhores práticas de proteção ambiental.
Dormimos nossa segunda noite na Bolívia no Hotel Cruz Andina, próximo à cidadezinha de Colcha K, na margem sul do Salar de Uyuni. Minha estimativa é que percorremos uns 200 km de Villamar Mallcu até lá. O hotel tem a peculiaridade de ter sido construído com tijolos de sal. É um hotel simples mas, comparado às pousadinhas precárias de Villamar Mallcu, até parecia um estabelecimento de luxo.
A Ilha Incahuasi
Saímos do nosso hotel em Colcha K às 5:00. O objetivo era chegar ainda no escuro à Ilha Incahuasi e ver o nascer do sol sobre o Salar de Uyuni. Com uma área de mais de 10 mil km² e 3.656 m de altitude, ele é o maior deserto de sal do mundo. Segundo os geólogos, formou-se há 40 mil anos pela evaporação de lagos pré-históricos. O salar é uma vasta planície de sal branco que se estende até o horizonte, onde aparecem montanhas. É um dos destinos turísticos mais visitados da Bolívia.

Incahuasi, a ilha dos cactus gigantes, fica bem no meio do salar, uns 65 km ao norte de Colcha K, onde havíamos dormido. É uma das 33 ilhas que existem no salar e uma das dez que estão abertas à visitação pública. Chegamos lá no escuro, depois de rodar por cerca de uma hora sobre o sal.
A ilha, com 246 mil m2, é um morro cercado pelo mar de sal e coberto por grandes cactos, os cardones (Trichocereus pasacana). É o que sobrou de um antigo vulcão. Seu ponto mais alto, aonde se chega por uma trilha, é a Praça 1º de Agosto, um mirante com visão de 360º do entorno. Ali perto fica o Arco de Coral, formação rochosa que marca a entrada de uma pequena caverna pela qual passa a trilha de descida.
A ilha estava lotada de turistas quando cheguei lá. Fiquei admirando e fotografando a paisagem enquanto o dia clareava. Depois, descemos e tomamos nosso café da manhã numa mesa de sal perto do estacionamento. Em seguida, caminhei um pouco em torno da ilha e vi umas pessoas desmontando suas barracas depois de terem passado a noite acampadas sobre o sal. Aparentemente, isso não é proibido. Também já ouvi relatos de pessoas que acamparam em ilhas menos visitadas, como o Isla del Pescado. São boas ideias para uma futura viagem.
Diversão fotográfica sobre o sal
Muitos turistas aproveitam a falta de referências de perspectiva na superfície do salar para fazer fotos e vídeos criativos. Basta posicionar uma pessoa perto da câmera e outra longe para que aquela que está próxima pareça enorme; e a outra, minúscula. Aproveitando essa ilusão de óptica, fizemos diversas fotos e vídeos. Nosso motorista, cozinheiro e guia virou também fotógrafo nesse momento, dando ideias, filmando e fotografando nosso pequeno grupo. Ele tinha até levado um dinossauro de brinquedo, que incluímos em algumas cenas, posicionando-o para que parecesse grande.

Feitas as fotos, seguimos para a Praça das Bandeiras, um complexo turístico onde ficam uma plataforma com bandeiras de muitos países, um antigo hotel de sal transformado em museu e lojinha de suvenires e o Monumento ao Rally Dakar. Essa escultura de sal (visível na foto inicial desta página) é uma lembrança da edição 2016 do Rally Dakar, cuja rota partiu de Buenos Aires e passou por Uyuni antes de retornar à Argentina. Ali perto, visitamos também uma fabriquinha artesanal de sal de cozinha. Nela, nosso guia nos mostrou como fragmentar o sal, adicionar iodo a ele e embalá-lo.
Durante a estação chuvosa, de setembro a novembro, uma fina camada de água transforma o salar em um gigantesco espelho. Como estávamos em maio, a água já havia baixado quase totalmente. Mas há uma pequena área a sudeste do salar onde a água permanece. Ela fica perto do delta do Rio Grande, que alimenta o salar. Lá, vimos o céu azul e as montanhas distantes refletidos na superfície líquida.
Depois disso, encerramos nossa visita ao salar e seguimos para o Cemitério de Trens de Uyuni. Nesse enorme pátio ferroviário nas cercanias da cidade de Uyuni, dezenas de vagões, locomotivas e equipamentos diversos enferrujam corroídos pelo vento salgado que vem do salar. Em sua maioria, os trens foram importados da Inglaterra no início do século XX. São restos da antiga ferrovia que ligava Uyuni a Antofagasta. Essa cidade litorânea pertenceu à Bolívia até 1879, quando a região foi ocupada e anexada pelo Chile durante a Guerra do Pacífico.
O cemitério, fotogênico e um tanto fantasmagórico, faz a alegria dos turistas, que sobem nos vagões para fotografar. Infelizmente, os trens já estão muito vandalizados e não há nem mesmo uma placa no local explicando sua história.

A longa volta a San Pedro de Atacama
Depois da visita ao cemitério de trens, almoçamos carne de lhama na cidade de Uyuni. De lá, Cédric e Aude, os dois franceses que haviam nos acompanhado até então, seguiram de ônibus para Potosí e, em seguida, para La Paz, continuando a viagem pela Bolívia.
Fábio e eu voltaríamos ao Chile com outro motorista, que partiria naquela tarde. Enquanto esperávamos, ficamos várias horas andando pela cidade. Numa feira de rua, um senhor nos convidou a experimentar uma fruta local com o tamanho de uma goiaba e a aparência de um coquinho. Ele a descascou com a mão (que não parecia nada limpa) e nos entregou para que provássemos. A fruta tinha uma poupa rosada de sabor adocicado.
Embarcamos num carro parecido com o anterior, mas em pior estado. Junto conosco, iriam dois casais de brasileiros, o que fez com que o português passasse a ser a língua oficial a bordo (durante a viagem de ida, na companhia do casal francês, alternávamos entre o francês e o espanhol). Com o carro mais cheio, nossas bagagens tiveram de ir para o teto, junto com os galões de combustível.
Seguimos por uma rota mais direta do que aquela que havíamos percorrido na ida. Depois de rodar algumas horas, tivemos de parar para que o motorista trocasse um pneu um tanto murcho. Passamos a noite em Villamar Mallcu, o mesmo vilarejo onde havíamos dormido em nossa primeira noite na Bolívia. Chegamos lá no escuro e bastante cansados.
No dia seguinte, partimos às 4:30 rumo à fronteira com o Chile. O passo Hito Cajón estava lotado de turistas e gastamos mais de uma hora para cruzá-lo, enfrentando filas tanto no lado boliviano como no lado chileno. Depois de alguma confusão na troca de veículos, fizemos o trajeto de microônibus até San Pedro de Atacama com um grupo de brasileiros muito barulhentos. Confesso que senti saudade da tranquilidade dos franceses.
Chegamos a San Pedro por volta de 11:00. O resto do dia foi de descanso e preparação para o dia seguinte, quando retornaríamos de moto a Purmamarca, na Argentina. Vou contar a última parte desta história em meu próximo post, onde detalho o acidente que sofri na Argentina.