Serra do Cipó e suas dezenas de cachoeiras

Uma semana de passeios pelas chapadas, campos rupestres e cachoeiras da Serra do Cipó, em Minas Gerais

A Serra do Cipó é uma vasta região de chapadas, campos rupestres, cidadezinhas pitorescas e muitas cachoeiras cerca de 100 km ao norte de Belo Horizonte. Estende-se pelos municípios de Itambé do Mato Dentro, Jaboticatubas, Morro do Pilar, Nova União e Santana do Riacho. Ela é parte de uma formação geológica com 1.000 km de extensão, a Serra do Espinhaço, que atravessa o norte de Minas Gerais e chega até a Bahia.

Estive várias vezes na Serra do Cipó nas décadas de 1980 e 1990, quando a região era bastante menos turística do que é hoje. Naquela época, além de atravessar o Parque Nacional da Serra do Cipó em várias direções, acampando pelo caminho, escalei algumas vezes na área do Morro da Pedreira (e também no entorno das grutas do Baú e Lapinha, na região de Lagoa Santa, mais ao sul).

Em janeiro deste ano, eu e minha esposa Isabel revisitamos a Serra do Cipó. Fomos em nossa caminhonete com camper e usamos como base dois campings — um em São José da Serra, um distrito rural de Jaboticatubas, e outro na vila de Serra do Cipó, no município de Santana do Riacho. Partindo desses locais, fizemos caminhadas curtas visitando as cachoeiras da região. Segue um relato desses passeios.

São José da Serra

São José da Serra é um vilarejo rural no município de Jaboticatubas. É ponto de partida para acesso à Lagoa Dourada, ao Desfiladeiro do Rio Jaboticatubas e a algumas cachoeiras. Lá, ficamos no Camping Piscina Natural, um bom camping que estava tranquilo quando estivemos lá. O camping oferece acesso ao rio Jaboticatubas através de um terreno aonde se chega caminhando por uma estradinha. Além de nadar nesse rio, fizemos os dois passeios no entorno do vilarejo que descrevo a seguir.

São José da Serra: café da manhã no camping antes de partir para a caminhada do dia
São José da Serra: café da manhã no camping antes de partir para a caminhada do dia

Cachoeira da Lagoa Dourada

A Lagoa Dourada é um planalto 3,6 km a leste de São José da Serra que é frequentado há décadas por montanhistas. Diferentemente do que o nome sugere, não há lagoa lá. O capim que cobre o planalto fica dourado em certas épocas do ano, o que deu origem a esse inusitado topônimo. Sua principal atração é a Cachoeira da Lagoa Dourada (vista na foto principal deste post), também conhecida como Cachoeira das Fadas, que desce a encosta em direção ao cânion do rio Jaboticatubas.

Lagoa Dourada: não há lagoa lá; o nome vem da cor do capim
Lagoa Dourada: não há lagoa lá; o nome vem da cor do capim

Para chegar lá, partindo do Camping Piscina Natural, rodamos três quilômetros de carro por ruazinhas de terra. Deixamos nosso carro na casa de uma moradora, a Dona Sandra, na Rua Manuel Bandeira, 300 metros antes da pousada Lifestyle Cipó (que pode ser localizada no Google Maps). A casa está marcada no Wikiloc como “Estacionamento”.

De lá, caminhamos primeiro para o norte pela estradinha. Depois, seguimos uma trilha no rumo nordeste atravessando uma área com muitos buracos no chão (visíveis no Google Earth), que talvez sejam resultado de alguma prospecção de minérios. Essa trilha percorre um arco subindo a serra no rumo oeste e depois seguindo em direção ao sul. Do alto da serra, tem-se uma bela vista da região.

Chegando à cachoeira, uma trilhinha à direita desce até a base, onde há um excelente poço para banhos. Quando estivemos lá, não encontramos nenhuma outra pessoa. Foi ótimo.

Serra do Cipó: mapa mostrando a trilha até a Cachoeira da Lagoa Dourada
Serra do Cipó: o mapa mostra a trilha de São José da Serra à Cachoeira da Lagoa Dourada e o local onde deixamos nosso carro

Cachoeira do Benê

A Cachoeira do Benê proporciona banhos agradáveis num rio com água da cor do chá mate rodeado por uma bela paisagem. Fica cerca de 10 km ao sul de São José da Serra, numa propriedade particular. Em janeiro de 2025, o proprietário cobrava 30 reais por pessoa pelo acesso.

Embora não seja difícil chegar a essa cachoeira, tanto o Google Maps como o Maps.Me indicaram caminhos ruins quanto tentamos traçar rotas neles. Então, ignoramos as instruções errôneas desses aplicativos e nos orientamos pelo mapa (há também alguns roteiros no Wikiloc mostrando a rota correta e, em caso de dúvida, é possível perguntar aos moradores ao longo da estrada).

Chegando à área de estacionamento perto da cachoeira, uma trilhinha bem curta leva até ela. Depois, há a possibilidade de subir ou descer o rio (com alguns lances de escalaminhada pelas pedras) e explorar outros poços e quedas d’água.

Distrito de Serra do Cipó

Quando conheci a Serra do Cipó, na década de 1980, a vila que hoje tem esse nome, no município de Santana do Riacho, chamava-se Cardeal Mota e já era a principal base para o turismo na região. A mudança de nome, em 2003, ajudou a atrair mais visitantes e fez as pousadas e restaurantes se multiplicarem.

Nesta vez, nos instalamos com nossa camper no Camping ACM, anexo à Cachoeira do Véu da Noiva, uns 2 km ao norte da vila de Serra do Cipó. É um camping grande que parece já ter vivido dias melhores, já que suas instalações estão precisando de uma reforma. Mesmo assim, nossa estadia lá foi agradável e aproveitamos para visitar a cachoeira do Véu da Noiva, além de fazer os dois passeios que descrevo a seguir, ambos no Parque Nacional da Serra do Cipó.

Cachoeira Véu da Noiva, a 2 km da vila de Serra do Cipó, em Santana do Riacho
Cachoeira Véu da Noiva: ficamos hospedados no camping anexo, a 2 km da vila de Serra do Cipó

Cachoeira da Farofa

A Cachoeira da Farofa (também chamada de Farofa de Baixo, para distingui-la da Farofa de Cima, que fica no mesmo rio mas tem acesso por outra trilha) é uma atração turística popular dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó. Tem acesso fácil, é bonita e oferece boa oportunidade para banho.

O caminho até lá começa na Portaria Areias do PNSC. Dessa portaria, segue-se primeiro por uma estradinha plana e bem sinalizada. Em janeiro de 2025, alguns trechos desse caminho estavam alagados. Neles, tivemos de caminhar com água na altura do tornozelo. Depois de uns 5 km, uma trilha à esquerda leva à cachoeira, enquanto a estradinha segue em frente, em direção ao Cânion da Bandeirinha. Esse desfiladeiro, onde estive há mais de 30 anos, é belíssimo, mas não o visitamos nessa vez.

Uma possibilidade interessante é alugar uma bicicleta para ir à Cachoeira da Farofa e ao Cânion da Bandeirinha, já que o tráfego de bicicletas é permitido nas estradinhas do parque. Há várias banquinhas que alugam bicicletas perto da Portaria Areias, mas estavam fechadas quando estivemos lá. Talvez só abram nos fins de semana. Algumas pessoas que encontramos pedalando haviam alugado suas bicicletas na vila de Serra do Cipó.

Parque Nacional da Serra do Cipó
Caminho à Cachoeira da Farofa: em alguns trechos, caminhamos pela água

Circuito Sete Cachoeiras

Este é um circuito que começa na Portaria do Retiro do Parque Nacional da Serra do Cipó e possibilita visitar sete cachoeiras: Andorinhas, Tombador, Érica, Gavião e as Congonhas de Baixo, do Meio e de Cima. Vale notar que a trilha divulgada pelo parque vai só até a Cachoeira do Tombador. Mas não encontramos nenhuma placa proibindo a passagem no restante do caminho, que segue por trilhas bastante nítidas.

Deveríamos finalizar essa travessia retornando ao Camping ACM, onde estávamos hospedados, pelo caminho conhecido como Trilha dos Escravos. Nessa rota, passaríamos também por uma oitava cachoeira, a Mãe D’Água, que parece ser pequena. No entanto, erramos o caminho no final e acabamos seguindo por uma estradinha que desemboca na rodovia MG-010 num local 3 km ao norte do camping. De lá, telefonamos a um taxista, que nos levou de volta à Portaria Retiro, onde havíamos estacionado nosso carro.

A caminhada começa por uma estrada asfaltada que, depois, transforma-se numa trilha plana. Essa trilha segue no rumo leste, acompanhando primeiro o Rio Cipó e, em seguida, um de seus afluentes, o Ribeirão Bocaina. Apesar de essa área ser parte do parque, há algumas casas de moradores nela. É um caminho bastante transitado. Depois de 6,8 km, chega-se a uma bifurcação que dá acesso, à direita, à Cachoeira Andorinhas, 800 metros ao sul.

Continuando na trilha principal, seguimos por mais uns 500 metros, agora acompanhando o Córrego Capão, até a Cachoeira do Gavião, onde havia bastante gente. A trilha prossegue para leste por mais 2 km até outra cachoeira, a do Tombador, passando pela cachoeira Érica, com menos água. Mas nós não percorremos esse trecho. Optamos por seguir diretamente da Cachoeira do Gavião para a bela Cachoeira Congonhas de Baixo, cerca de 1 km ao norte.

Há duas opções nesse trecho da travessia. A primeira é fazer uma escalaminhada subindo pelas pedras ao lado da Cachoeira do Gavião. Pode-se seguir pelo rio até a Cachoeira Congonhas de Baixo. Esse caminho não parece ser difícil. No entanto, Isabel e eu optamos por voltar mais 100 metros pela trilha (no rumo oeste, em direção à Portaria Retiro) e tomar uma trilhinha íngreme que sobe o morro e segue para o norte. É o caminho descrito no roteiro que seguimos no Wikiloc (link abaixo).

Na Congonhas de Baixo, encontramos um caminhante que estava fazendo a travessia no sentido contrário, vindo da Pousada Duas Pontes, que fica ao lado da rodovia MG-010, ao norte. Depois desse ponto, não encontraríamos mais ninguém na trilha.

Da Congonhas de Baixo, continuamos, ainda no rumo norte, até a Cachoeira Congonhas do Meio, também muito bonita e apropriada para banho (foto abaixo). Optamos por não visitar a Cachoeira Congonhas de Cima, acessível pela trilha que segue para o norte e se prolonga até a Pousada Duas Pontes. Em vez disso, seguimos no rumo oeste por um longo trecho de subidas e descidas, até finalmente descer em direção a uma estradinha com diversas casas.

Cachoeira Congonhas do Meio, na Serra do Cipó
Cachoeira Congonhas do Meio: não encontramos ninguém nesse trecho da trilha

Caminhamos uns 700 metros pela estradinha até uma bifurcação, onde viramos à esquerda, descendo para o sul e cruzando um riozinho 250 metros adiante. Foi nesse lugar, a menos de 3 km do fim da caminhada, que perdemos nossa trilha. Como era época de chuva, o nível da água estava alto e o mato em volta do riacho, bastante crescido. Deveríamos seguir para oeste acompanhando o riozinho, mas não encontramos a trilha nesse local.

Acabamos voltando à estradinha mais acima e seguindo por ela no rumo oeste, até a rodovia MG-010. Se você decidir percorrer esse roteiro, acho que vale a pena insistir e localizar a trilha correta, que provavelmente estava escondida no meio do capinzal próximo à margem do rio. É o que vamos fazer se tivermos a oportunidade de voltar lá algum dia.

Nota: as cachoeiras merecem cinco estrelas, mas a estradinha no final da nossa travessia foi um tanto monótona.

Parque Nacional da Serra do Cipó - Trilhas
Parque Nacional da Serra do Cipó: o mapa mostra trilhas de acesso às cachoeiras Gavião, Congonhas e Farofa, entre outras

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