Atacama de moto 2 – O Rastro da Serpente

Na primeira semana de nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, fomos de São Paulo a Termas de Río Hondo, na Argentina, passando pelo Rastro da Serpente e pelas ruínas de San Ignacio Miní.

Dia 1 — São Paulo a Apiaí, SP, pelo Rastro da Serpente — 315 km
Dia 2 — Fim de semana com os amigos e visita ao Morro do Ouro, em Apiaí
Dia 3 — Apiaí a Guarapuava, PR — 420 km sob chuva
Dia 4 — Guarapuava a Barracão, PR — 300 km sob chuva
Dia 5 — Barracão a Ituzaingó, Misiones, com visita a San Ignacio Miní — 410 km
Dia 6 — Ituzaingó, Missiones, a Las Breñas, Chaco — 505 km
Dia 7 — Las Breñas a Termas de Río Hondo, Santiago del Estero — 440 km

Distância até aqui: 2.390 km

O trajeto da primeira semana da nossa viagem de moto ao Atacama, de São Paulo a Termas de Río Hondo, no Google Maps
Rumo ao Atacama: nosso trajeto de São Paulo a Termas de Río Hondo no Google Maps

O Rastro da Serpente

A cênica rota de Capão Bonito a Apiaí, pela SP-250, e de lá a Colombo, no Paraná, pela BR-476, é conhecida como Rastro da Serpente. Esse percurso sinuoso, uma das rotas de mototurismo mais conhecidas do Brasil, foi o caminho que eu e meu amigo Fábio escolhemos para iniciar nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, depois de um longo período de preparação.

Em 20 de abril de 2024, um sábado, partimos com mais dois amigos — Ivo e Iscoti — em direção a Apiaí, no sul do estado de São Paulo, onde passamos o fim de semana na casa de outro amigo, o César. O percurso de moto até lá foi superagradável, um ótimo começo para nossa viagem ao Chile. César tinha experiência em mecânica e nos mostrou como desmontar um pneu e trocar a câmara de ar em caso de necessidade. Também nos ensinou a regular a tensão da corrente da moto, algo que eu faria uma vez durante a viagem. Ainda aproveitamos o fim de semana para visitar o mirante do Morro do Ouro, em Apiaí.

Em nosso terceiro dia de viagem, percorremos o trecho paranaense do Rastro da Serpente. A estrada é linda e tem vários lugares onde se pode parar para fazer fotos. Mas pegamos neblina e garoa nela, principalmente no início, ainda perto de Apiaí. Contornamos Curitiba pelo movimentado anel viário da cidade e prosseguimos até Guarapuava. Na BR-277 (a infame “Estrada da Morte do Paraná”) encontramos tráfego intenso de caminhões. Isso, junto com a chuva, tornou esse trecho um tanto estressante.

No dia seguinte, fizemos quase todo o trajeto de Guarapuava a Barracão, cidade paranaense na fronteira com a Argentina, debaixo de forte chuva. Por causa do mal tempo, rodamos apenas 300 km nesse dia.

Eu, com meus amigos motoqueiros, em Apiaí, SP, por onde passa o Rastro da Serpente
Rastro da Serpente: no trecho até Apiaí, SP, tivemos a companhia de amigos motoqueiros

Bienvenido a Argentina

Barracão forma uma área urbana conjunta com Dionísio Cerqueira (SC) e Bernardo de Irigoyen, na província argentina de Misiones. Lá, trocamos alguns reais por um maço de pesos argentinos (o peso estava muito desvalorizado na época) e compramos chocolates num “free shop”. No quinto dia, com o tempo melhorando um pouco, cruzamos a fronteira e seguimos rumo a Ituzaingó, cidade argentina à margem do Rio Paraná.

Rodamos inicialmente pela Ruta Nacional 14 (RN-14), atravessando um terreno ondulado, com curvas e subidas suaves entre fazendas, até a cidadezinha de Aristóbulo del Valle. Logo na entrada dessa cidade, fica o Parador Turístico, com posto de informações, banheiros e lojinha de artesanato. Quando estacionamos nossas motos, um rapaz que trabalhava lá pediu para nos fotografar. Disse que usaria as fotos para promover o mototurismo na região.

Em Aristóbulo, abandonamos a RN-14 e descemos uma serra pela Ruta Provincial 7 (RP-7). Atravessamos a Reserva Valle del Arroyo Cuña Pirú, coberta com mata densa e úmida, em direção a Jardín América, já no vale do Rio Paraná. Em seguida, passamos a transitar por longas retas na RN-12, que acompanha o rio Paraná, na fronteira com o Paraguai.

Nessa estrada, passamos a encontrar motoqueiros brasileiros vindo de Foz do Iguaçu — o caminho mais usado pelos paulistas que vão ao Atacama. Às vezes, rodávamos alguns quilômetros com eles, mas não muitos. A maioria dos mototuristas brasileiros que vão à Argentina e ao Chile viajam em motos de grande cilindrada, mais velozes que nossas Yamaha XTZ-250 Lander. Então, acabávamos ficando para trás.

San Ignacio Miní

Ruínas de San Ignacio Miní, na província argentina de Misiones
San Ignacio Miní: o local onde existiu uma importante missão jesuítica no século XVII

O primeiro lugar turístico que visitamos na Argentina foi San Ignacio Miní, na província de Misiones. Esse conjunto de ruínas é um importante vestígio das missões jesuíticas na América do Sul. Fundada no século XVII, essa missão fazia parte de um grupo de 30 reduções jesuíticas espalhadas pelo sul do Brasil, norte da Argentina e leste do Paraguai. Nelas, os jesuítas combinavam educação religiosa com trabalho prático, criando aldeias autossuficientes.

San Ignacio Miní foi destruída no século XVIII, após a expulsão dos jesuítas das colônias espanholas em 1767. Sem o apoio e a organização dos padres, as reduções entraram em decadência e se tornaram vulneráveis a ataques. Bandeirantes portugueses e outros grupos coloniais invadiram a região, pilhando e destruindo as missões. San Ignacio Miní, que tinha sido um próspero centro cultural e religioso, foi deixada em ruínas.

A missão foi construída em pedra seguindo o estilo barroco com influências indígenas. Hoje, o local preserva traços dessa herança. Restam partes da igreja, do colégio, das oficinas e das residências. As ruínas foram declaradas Patrimônio Mundial pela Unesco em 1984. Elas oferecem uma visão fascinante de como poderia ter sido uma hipotética república guarani na região caso os jesuítas tivessem tido sucesso em seu projeto.

Depois de visitar as ruínas, que ficam bem no meio da cidadezinha de San Ignacio, almoçamos num restaurante próximo e seguimos para Ituzaingó, cidade à margem do rio Paraná onde dormimos nossa primeira noite na Argentina. Como na maioria das outras cidades onde pernoitamos, não reservamos o hotel previamente. Estávamos em baixa temporada. Assim, não era difícil encontrar quartos livres.

Ruínas de San Ignacio Miní, na província argentina de Misiones
San Ignacio Miní: um vislumbre de como poderia ter sido uma hipotética república guarani na região

Botas enxarcadas

Esses primeiros dias com chuva serviram para testar nosso equipamento; e alguns itens não passaram no teste. A calça para chuva, da marca GP Tech, mostrou-se curta demais e incapaz de manter-se na posição correta sobre as botas. Com o vento na estrada, a água da chuva entrava nas botas, que ficaram enxarcadas.

Também tive problemas com o capacete, um LS2 Valiant. A viseira antiembaçante Pinlock soltou-se várias vezes. Mas o pior é que o capacete apertava minhas orelhas, que ficavam doendo depois de algumas horas. Além disso, o Valiant é pesado e muito ruidoso. É um modelo que eu não compraria novamente.

Meus faróis auxiliares, de marca genérica, não suportaram os solavancos da estrada e quebraram-se depois de poucos dias. Tive de removê-los e jogá-los no lixo. Tanto a antena corta-pipas como o carregador de celular preso ao guidão da minha moto desintegraram-se espontaneamente em algum momento e também foram para o lixo.

Já meu intercomunicador, um Ejeas V6+, funcionou como esperado. Mas o do Fábio, de mesmo modelo, falhou logo no início da viagem e acabou sendo descartado. As conclusões são óbvias: primeiro, equipamentos para viagens longas têm de ser simples, robustos e confiáveis; segundo, é preciso testá-los antes da viagem sob diferentes condições, incluindo chuva forte.

Esteros del Iberá

Depois de dormir em Ituzaingó, seguimos para Las Breñas, na vizinha província do Chaco. Iniciamos essa etapa da viagem continuando pela RN-12, que acompanha o rio Paraná até Corrientes, capital da província homônima. Lá, atravessamos o rio por uma grande ponte, contornamos a cidade de Resistência e seguimos no rumo noroeste pela RN-16 por mais 214 km. Viramos, então, à esquerda; e prosseguimos no rumo sudoeste pela RN-89, em direção à cidade de Santiago del Estero.

Nessa etapa da viagem, andamos por estradas retas, com bom asfalto e quase nenhum trânsito. A rota passa por fazendas e margeia o Parque Nacional Esteros del Iberá. Nossas motos Yamaha XTZ-250 Lander tinham velocidade de cruzeiro real de cerca de 95 km/h (embora o velocímetro marcasse mais de 100 km/h). Alguns motoqueiros talvez se incomodassem com esse ritmo lento. Mas eu me senti bem, feliz por poder observar a paisagem numa estrada tranquila. Pelo caminho, vi emas, gaviões, garças e muitos outros pássaros, além de bois e ovelhas.

Dormimos uma noite em Las Breñas, cidadezinha sem atrativos na província de Chaco. Como em outros lugares no interior da Argentina, vimos muitas motos chinesas de pequena cilindrada circulando por lá, algumas em mal estado. É um meio de transporte popular, que as pessoas usam no dia a dia. Muitas pilotam sem capacete, às vezes levando crianças na garupa ou sentadas no tanque de combustível.

Policiais perigosos

Corrientes é uma das duas províncias argentinas conhecidas pela ação criminosa de policiais desonestos (a outra é Entre Ríos). Em grupos de WhatsApp de viajantes, costumam circular relatos de pessoas que sofreram extorsão nessas duas províncias. O policial inventa uma infração qualquer, retém algum documento do motorista ou motoqueiro e exige dinheiro para liberá-lo. Há histórias bizarras, como a de guardas que disseram que o motoqueiro seria retido porque não tinha extintor de incêndio na moto, algo que não é exigido pela legislação argentina e nem de outros países.

Há muitos postos de fiscalização nas estradas argentinas, onde os policiais às vezes param os carros e motos e verificam os documentos do motorista. Em Corrientes, cada vez que eu chegava a um desses postos de controle, ficava apreensivo temendo ser extorquido. Felizmente, nessa viagem, não tive problemas. Na maioria das vezes, o policial fazia sinal para eu prosseguir e eu nem precisava parar.

Apenas em duas ocasiões me pediram documentos. A primeira foi logo depois de cruzarmos a fronteira; e, a segunda, dentro da cidade de Corrientes. Nos dois casos, mostrei os documentos e fui liberado. Depois, discutindo como agir nessas situações, Fábio e eu concluímos que, para um policial desonesto, seria provavelmente mais fácil extorquir uma pessoa sozinha do que um grupo. Então, seria melhor pararmos os dois quando um de nós fosse retido.

Termas de Río Hondo

Depois de dormir em Las Breñas, prosseguimos em direção a Termas de Río Hondo, na província de Santiago del Estero. Seguimos pela RN-89 e, depois, pela RN-34, até contornar a cidade de Santiago del Estero, capital da província. De lá, tomamos a RN-9, no rumo noroeste, até Termas de Río Hondo.

Essa cidade é conhecida por suas águas termais que abastecem hotéis, spas e um parque aquático. Também atrai visitantes pelo seu autódromo, onde acontecem competições internacionais como o MotoGP. Junto ao autódromo, funciona o Museo del Automóvil, com uma coleção de veículos antigos. E alguns turistas ainda aproveitam para fazer passeios de barco na represa local.

Para nós, Termas de Río Hondo era um ponto de passagem e um lugar conveniente para pernoite — não um destino. Nos instalamos num hotelzinho onde lavamos as motos — enlameadas depois de vários dias chuvosos — e relaxamos na piscina. A cidade é movimentada e tem até um cassino com certa imponência. Jantamos na cervejaria Patagonia local (há várias espalhadas pela Argentina). O tempo continuava chuvoso, mas eu ainda caminhei bastante pela cidade antes de ir dormir.

No dia seguinte, iniciando a segunda semana da viagem ao Atacama, subiríamos a serra em direção a Tafí del Valle, na província de Tucumán. A paisagem ficaria mais cênica e muito mais interessante à medida que fôssemos ganhando altitude, passando a transitar pela Puna, o altiplano argentino. Mas essa parte da viagem fica para o próximo post.

Fabio viajando de moto na Puna, o altiplano Argentino
A Puna Argentina: na próxima etapa, transitaríamos por uma região de altitude com belas paisagens

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