Atacama de Moto 1 — O longo caminho até o deserto

Pouco mais de um ano depois de comprar minha primeira moto, viajei com ela ao Deserto de Atacama, no Chile. O caminho mais longo eu percorri antes da partida.

Do acidente ao blog

Em abril de 2024, iniciei uma ótima viagem de moto ao Deserto de Atacama, no Chile. A viagem foi sensacional, mas terminou com um grave acidente no noroeste da Argentina durante a volta ao Brasil. Despenquei quase 30 metros num precipício e perdi a moto, que rolou morro abaixo e ficou caída num vale profundo. Fraturei quatro costelas, rompi dois ligamentos e tive uma luxação acromioclavicular severa. Demoraria quase um ano para eu voltar a pilotar, depois de passar por uma cirurgia no ombro e por um longo processo de recuperação.

O acidente foi tão marcante que acabou ofuscando os bons momentos da viagem. Para que esses bons momentos não caíssem no esquecimento, transformei minhas anotações num diário de bordo, que agora começo a publicar neste blog em ordem cronológica. Este primeiro post trata da preparação para ir ao Atacama. No meu caso, essa preparação começou do zero, já que eu nunca tinha pilotado uma moto antes. Espero que estes textos sejam úteis e inspiradores para você.

Motos são para suicidas?

Sempre me mantive distante das motos por medo de me acidentar. Na adolescência, ouvi várias vezes meu pai dizer que “o para-choque da moto é o peito do motociclista”. Ele estava certo, é claro, já que uma motocicleta não protege seus ocupantes como um carro. Ainda na minha adolescência, um amigo da família morreu num acidente de moto, causando comoção. As motos pareciam ter sido projetadas para os suicidas. Assim, durante décadas, nunca cogitei pilotar uma delas.

Em 2021, comecei a ver, no YouTube, vídeos de motoqueiros felizes viajando por lugares como o Alasca, a Patagônia, os Alpes e as estepes da Ásia Central. Eles, obviamente, tinham voltado vivos para contar suas histórias e pareciam ter se divertido muito. Com 58 anos, eu já tinha artrose nos joelhos e nos quadris, o que inviabilizava atividades como a escalada, que havia me trazido muita alegria quando eu era mais jovem. Pelo mesmo motivo, eu já não podia mais percorrer longas distâncias de bicicleta, como fazia na minha juventude. Ter um motor me levando sobre duas rodas passou a ser uma ideia atraente.

Como o motociclismo era um assunto novo para mim, tratei de me informar. Comprei uma dúzia de livros sobre viagens de moto, incluindo um do Neil Peart, o baterista virtuoso da banda canadense Rush (morto em 2020). Peart viajou extensamente pela América do Norte em sua moto depois de sofrer uma tragédia familiar. Ele conta os detalhes em seu livro Ghost Rider (em português, chamado A Estrada da Cura), que eu devorei.

Também assisti a muitas horas de vídeos sobre esse tema no YouTube. Num deles, um motoviajante dizia: “Se você puder fazer uma única viagem de moto na sua vida, vá ao Deserto de Atacama. Vai ser uma experiência inesquecível.” Depois de ouvir isso, eu já tinha um destino aonde ir.

Por que o Atacama

O Deserto de Atacama parece ser o destino de viagem mais visitado pelos motoqueiros brasileiros no exterior. Há vários motivos para isso. Estes são alguns deles:

  • A rota para o Atacama passa por estradas espetaculares na Cordilheira dos Andes e nas serras do Noroeste da Argentina.
  • Há muitos lugares turísticos para visitar no caminho e no próprio Atacama.
  • Pode-se chegar ao Oceano Pacífico, o que traz a sensação de ter atravessado todo o continente.
  • Não há grandes complicações para cruzar as fronteiras ou para circular de moto na Argentina e no Chile. Brasileiros não precisam de visto nem de passaporte para ir a esses países.
  • Pode-se chegar ao Atacama por estradas 100% asfaltadas, o que torna a viagem acessível a qualquer tipo de moto e a pilotos que não possuem habilidades de pilotagem off-road.
  • Como muitos brasileiros conseguem se comunicar em espanhol, o idioma não é um problema.
  • Há muita informação sobre esse roteiro na web e nos vídeos do YouTube.
  • A distância de ida e volta — uns 7 mil km — é suficientemente curta para ser percorrida num período de férias de três ou quatro semanas.
  • Até 2024, os custos de viagem eram baixos na Argentina (mas os preços subiram nos últimos anos).

Resumindo, é uma viagem agradável e relativamente fácil.

Para planejar essa viagem, criei uma planilha em que montei um calendário e fiz estimativas de quilometragens diárias, pontos de parada e custos, além de listar as tarefas preparatórias para a viagem. Também criei o mapa abaixo, no qual fui marcando atrações e caminhos que eu poderia percorrer no rumo do Atacama. Esse mapa segue em constante aperfeiçoamento. De vez em quando, vou lá e acrescento alguma informação para futuras viagens.

Aprendendo a pilotar

Agora que eu tinha um objetivo — ir de moto ao Deserto de Atacama — faltavam a habilitação para pilotar, a moto, os equipamentos, as habilidades e a experiência necessárias para fazer uma viagem longa. Adquirir tudo isso seria um projeto de mais de dois anos. Em maio de 2022, me inscrevi num centro de formação de condutores (CFC, a antiga “autoescola”) para adicionar, à minha habilitação, a categoria A, que me tornaria apto a pilotar motos. Essa primeira etapa do projeto demorou uns sete meses.

No final de 2022, assim que fui aprovado no exame do Detran e pouco antes de completar 60 anos, comprei uma Yamaha XTZ 250 Lander. Escolhi essa moto por ser leve, confiável, compatível com o meu orçamento e adequada tanto para o asfalto como para estradas não pavimentadas. Foi uma ótima escolha, já que a Lander se mostrou uma excelente moto de aprendizado.

Adquirir as habilidades foi muito mais complicado que comprar a moto. A autoescola não nos prepara para o trânsito nem para as estradas. Então, fiz três treinamentos adicionais. O primeiro, antes mesmo de ser aprovado no exame do Detran, foi com o Sidney Sciliano, um ex-piloto de corrida que dá aulas particulares na Serra da Cantareira. O treinamento do Sciliano foi fundamental para que eu pudesse pegar a moto na concessionária e ir pilotando para casa. Nesse treinamento, engatei a segunda marcha (e a terceira, a quarta…) pela primeira vez, já que, nas aulas da autoescola, só andávamos em primeira.

Depois de retirar a moto da concessionária, comecei rodando pelo bairro onde moro, que é razoavelmente tranquilo, para ganhar experiência. Fui aumentando a distância aos poucos. Um amigo que tinha uma scooter, o Fábio, fez alguns passeios comigo, me encorajando a ir mais longe. Algum tempo depois, Fábio comprou uma Lander também e acabamos indo juntos ao Deserto de Atacama.

O contra-esterço

Fiz um segundo treinamento com o instrutor Tite Simões. Nele, exercitamos frenagem de emergência, desvio de obstáculos e outras manobras básicas. Para quem não pilota motos, vale explicar que algumas manobras são anti-intuitivas. Para virar à direita numa bicicleta, giramos o guidão para esse lado, o que é natural. Já na moto, para virar à direita, movemos o guidão para a esquerda ao mesmo tempo que inclinamos a moto para a direita. É o chamado contra-esterço. O contra-esterço precisa ser praticado extensamente até que possamos executá-lo de forma mais ou menos automática.

Uma coisa que ninguém me disse (talvez por ser óbvia demais para os pilotos experientes), mas que acabei descobrindo com a prática, é que a inclinação da moto nas curvas não deve ser, na maioria das vezes, igual à do motociclista. Em baixa velocidade, inclinamos mais a moto que o tronco. Nas curvas em alta velocidade, acontece o contrário. Antes de perceber isso, eu tentava manter o tronco alinhado à moto, o que me trazia dificuldade nas curvas.

Um subproduto do treinamento do Tite foi minha entrada num grupo de WhatsApp onde conheci outros motoqueiros com quem viria a fazer alguns passeios. Com o tempo, comecei a explorar as estradinhas em volta de São Paulo, como a Estrada dos Romeiros, muito frequentada por ciclistas e motoqueiros. Suas muitas curvas proporcionam um treinamento intensivo de contra-esterço.

Como eu queria fazer também um curso de pilotagem em trilhas, Tite me indicou a empresa Guararema Off Road. Numa fazenda próxima à cidade de Guararema, no Vale do Paraíba, fiz um treinamento com o instrutor Jan Tarwak. Foi uma útil introdução à pilotagem em pé e às técnicas usadas para superar obstáculos com a moto. Mas, para realmente desenvolver essas habilidades, eu precisaria ter praticado mais. Não fiz isso e, em maio de 2024, por falta de prática na lama, sofri aquele acidente grave numa estradinha enlameada na Argentina.

“Mais de 90% dos acidentes poderiam ser evitados pelo motociclista.”
— Tite Simões

Preparando a moto

Yamaha XTZ-250 Lander na Praça do Avião, em Araçariguama, SP
Praça do Avião, em Araçariguama, SP: um dos lugares que visitei com minha Yamaha XTZ-250 Lander

Enquanto treinava, fui equipando a moto para viajar, uma tarefa mais complexa do que parece à primeira vista. Adicionei protetor de carenagem, três baús para bagagem, cavalete central, para-brisa (que os motoqueiros chamam de “bolha”), faróis auxiliares, uma bolsa para pequenos objetos acoplada ao tanque de combustível, termômetro (útil para saber quando há risco de formação de gelo na pista) e outros acessórios. Também comprei as roupas e equipamentos pessoais de segurança: jaqueta e calça com proteções, luvas, botas e um colete protetor de coluna, além do capacete, que eu havia adquirido ao entrar na autoescola.

Avançando na preparação, comecei a fazer viagens mais longas pelas estradas paulistas. Com o Fábio, fui a São Bento do Sapucaí, subindo a Serra da Mantiqueira por Monteiro Lobato (rodovia SP-50), uma bela rota. Também visitamos Iguape, no litoral sul do estado, indo pela Serra da Macaca (SP-139) e voltando pela Serra Cabeça de Anta (SP-79), duas estradas cênicas muito apreciadas pelos motoqueiros.

Com a turma do grupo de WhatsApp, fui a Cubatão pela Estrada da Manutenção da Rodovia dos Imigrantes, entre outros lugares. Sozinho, segui explorando as estradinhas em volta de São Paulo. Também passei a pilotar no trânsito, algo desafiador para quem mora em São Paulo. Muitas vezes, fui de moto ao escritório da empresa de tecnologia bancária em que eu trabalhava, na Avenida Faria Lima.

Em abril de 2024, depois de mais de 5 mil quilômetros rodados e quase dois anos depois de eu me inscrever na autoescola, chegou a hora de colocar a bagagem na moto e partir para o Atacama. Mas essa história fica para o próximo post.

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