Atacama de moto 3 – Enfrentando o rípio no Noroeste Argentino

Em mais uma etapa da nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, visitamos Tafí del Valle, Cafayate, Salta e a remota San Antonio de Los Cobres.

Dia 8 — Termas de Río Hondo a Tafí del Valle, Tucumán — 160 km
Dia 9 — Tafí del Valle a Salta — 320 km
Dia 10 — Salta (revisão da moto, lavanderia e passeios)
Dia 11 — Salta a San Antonio de Los Cobres – 170 km; passeio a Termas de Pompeya – 26 km
Dia 12 — San Antonio de Los Cobres a San Salvador de Jujuy – 260 km

Distância até aqui: 3.327 km

A rota de Termas de Río Hondo a San Salvador de Jujuy, a caminho do Atacama
A caminho do Atacama: nossa rota de Termas de Río Hondo a San Salvador de Jujuy

A simpática Tafí del Valle

Iniciando a segunda semana da nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, em abril de 2024, eu e meu amigo Fábio deixamos Termas de Río Hondo, na província argentina de Santiago del Estero, em direção à simpática cidadezinha de Tafí del Valle, na vizinha província de Tucumán. Estávamos iniciando a parte mais interessante da viagem, por estradas sinuosas em meio a altas montanhas e paisagens espetaculares. Já tínhamos viajado por uma semana desde São Paulo e havíamos encontrado muita chuva pelo caminho (leia sobre a preparação e a primeira semana da viagem nos posts anteriores).

Para chegar a Tafí, subimos uma serra. À medida que ganhávamos altitude, o tempo chuvoso foi ficando para trás e o céu azul surgiu. Pareceu mágico ver a paisagem montanhosa sob sol depois de tantos dias de chuva. Para quem não pilota, vale explicar que motoqueiros adoram estradas sinuosas, já que é agradável fazer as curvas com a moto inclinada. Nessa subida de serra, nos divertimos bastante.

Em Tafí, nos instalamos num hotelzinho e saí para fazer uma caminhada na área do Cerro Pelao, um morro perto da cidade. Há vários circuitos de caminhada na região, com diferentes extensões. O app de navegação em trilhas Wikiloc lista mais de uma centena de roteiros no entorno de Tafí. Existem, inclusive, alguns refúgios de montanha nessa área, o que permite fazer travessias de vários dias sem levar barraca. As trilhas se estendem pelo Parque Provincial Cumbres Calchaquíes, ao norte, com montanhas que passam de 3.000 metros.

Como partiríamos no dia seguinte, eu tinha apenas uma tarde para explorar os morros em volta da cidade. Escolhi uma trilhinha de uns 5 km passando pelo Cerro de la Cruz, onde, como o nome sugere, há um cruzeiro. Fábio me acompanhou até esse cume. Depois, ele desceu para fazer um passeio de moto e eu prossegui sozinho. Foi ótimo largar a moto e andar um pouco numa paisagem ensolarada.

Segue abaixo um mapa da trilha que percorri. Minha classificação: ⭐⭐⭐⭐ | 🔄 | 🏃 | 🧭🧭.

Mapa mostrando a caminhada que fiz em Tafí Del Valle, Argentina, passando pelo Cerro de La Cruz
Tafí del Valle: no mapa, a caminhada que fiz passando pelo Cerro de La Cruz

Abra del Infiernillo

Depois de uma noite em Tafí del Valle, partimos rumo a Salta, onde faríamos a revisão das nossas motos. Esse dia, o nono da nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, seria o mais bonito até então. De Tafí, a Ruta Provincial 307 (RP-307) continua subindo pelo vale até atingir 3.042 metros de altitude na Abra del Infiernillo. Durante a noite, as nuvens que cobriam a planície a leste haviam subido pelo vale e coberto Tafí. Mas, subindo a serra, logo saímos da neblina, encontramos o sol e passamos a ver as nuvens por cima. Fizemos muitas as paradas para fotos nesse trecho.

Depois do passo, a RP-307 segue serpenteando pela serra no rumo noroeste, percorrendo a região dos Cumbres Calchaquíes, com paisagens impressionantes. É uma dessas estradas que muitos motociclistas sonham percorrer um dia. Estávamos realizando um sonho. Nesse trecho, começamos a ver cardones (Trichocereus pasacana), os cactos gigantes típicos do noroeste da Argentina. É uma vegetação que nos acompanharia por muitos dias de viagem.

Minha moto próxima à Abra del Infiernillo
Cumbres Calchaquíes: Tafí del Valle está ao fundo, coberta de nuvens

Cafayate

Aos poucos, a RP-307 vai descendo até encontrar, perto de Amaicha del Valle, a famosa Ruta 40 (RN-40), a estrada mais longa da Argentina. Com mais de 5 mil quilômetros, ela percorre o país desde La Quiaca, na fronteira com a Bolívia, até o Cabo Vírgenes, próximo ao Estreito de Magalhães, acompanhando a Cordilheira dos Andes. Eu já conhecia outros trechos dessa estrada, que havia percorrido em outras viagens à Argentina, mas não aquela parte em que iríamos rodar.

Entramos na RN-40 e seguimos no rumo norte, passando por uma sucessão de vinícolas. A região produz ótimos vinhos em altitudes elevadas. Os mais conhecidos são brancos feitos com uvas da variedade Torrontés. Essa casta de uvas é nativa da Argentina e típica desse vale. Com ela, produzem-se vinhos brancos leves e aromáticos. Em Cafayate, almoçamos algumas empanadas e demos uma volta pela cidade. Talvez valesse a pena dormir lá e passear pelas redondezas. Mas já tínhamos agendado a revisão das motos em Salta e, por isso, prosseguimos.

Eu, ao lado de um letreiro em Cafayate, na província de Salta, Argentina.
Cafayate: há muitas vinícolas no entorno da cidade (foto: Fábio von Tein)

Quebrada de Las Conchas

De Cafayate a Salta, seguimos pela RN-68, que atravessa a Quebrada de Las Conchas, uma das principais atrações turísticas da região. Esse vale oferece uma sucessão de formações rochosas interessantes. Há desfiladeiros, arcos de pedra, agulhas de arenito e encostas multicoloridas. Essas formações têm nomes como Garganta del Diablo, Anfiteatro, Tres Cruces e Los Colorados. Ao longo da estrada, existem vários locais onde se pode estacionar o carro ou moto e sair caminhando por trilhas curtas (um deles aparece na foto inicial deste post). Vans de turismo, vindo de Cafayate e de Salta, também percorrem essa rota, que é bastante movimentada.

Fazia muito calor e nossas roupas de motociclismo atrapalharam bastante. Acabei deixando de fazer alguns passeios a pé porque era incômodo caminhar com botas de motoqueiro. Se algum dia eu passar pela Quebrada de Las Conchas novamente, vou deixar uma bermuda e um par de botas de caminhada à mão. Também vale a pena levar dinheiro em papel. Há alguns vendedores de artesanato lá oferecendo coisas interessantes. Mas, como não há sinal de celular no vale, eles não aceitam cartões.

A formação rochosa Las Ventanas, na Quebrada de Las Conchas, Argentina
Las Ventanas: uma das muitas formações rochosas interessantes na Quebrada de Las Conchas

Salta e o Cerro San Bernardo

Prosseguindo pela RN-68, chegamos já ao anoitecer a Salta, a sétima maior cidade da Argentina, com cerca de 700 mil habitantes. No dia seguinte, deixamos as motos numa concessionária Yamaha para a revisão dos 10.000 km; e as roupas sujas, numa lavanderia. Em seguida, Fábio e eu subimos de teleférico ao Cerro San Bernardo, de onde se tem uma visão panorâmica da cidade e dos arredores.

À tarde, voltei a subir ao San Bernardo, nessa vez a pé e sozinho. A trilha pela qual subi tem trechos de escadaria no meio da mata e uma via sacra. Nela, 14 capelinhas representam etapas da caminhada de Jesus Cristo até o Calvário, onde, segundo os evangelhos, ele foi crucificado. Mesmo sendo uma segunda-feira, encontrei bastante gente caminhando nessa trilha.

Salta me pareceu bastante agradável, especialmente o Centro, onde há várias ruas de pedestres e prédios antigos bem preservados. Infelizmente, não pudemos visitar os museus, que estavam fechados na segunda-feira. O mais conhecido deles é o Museu de Arqueologia de Alta Montanha, onde ficam as múmias de crianças recolhidas no vulcão Llullaillaco.

Além de encontrar museus fechados, estranhamos os horários do comércio, que fecha das 13h às 17h para a siesta. Isso vale até para as igrejas, que também fecham para a siesta. Como a Argentina adota o fuso horário GMT-3 (o mesmo de São Paulo) em todo o país, na área mais a oeste, onde estávamos, amanhece e anoitece tarde. Assim, tivemos de ir ajustando nossos horários enquanto avançávamos rumo ao Chile.

Praça 9 de Júlio, em Salta, na Argentina, à noite
Salta: a principal cidade do montanhoso noroeste argentino

Rumo à Cordilheira

No dia seguinte, com as motos revisadas e as roupas limpas, seguimos para San Antonio de Los Cobres. Partindo de Salta, há duas interessantes estradas asfaltadas que seguem rumo à Cordilheira dos Andes, a oeste. A primeira, mais ao sul, é a Ruta Provincial 33 (RP-33), que vai até Payogasta, onde encontra a Ruta 40. A RP-33 percorre o Vale de Escoipe, sobe a Cuesta del Obispo e atravessa o Parque Nacional Los Cardones. Parece ser um ótimo caminho para percorrer de moto ou de carro, com belas paisagens. Mas essa estrada ficou para alguma viagem futura.

Em vez dela, Fábio e eu decidimos percorrer a Ruta Nacional 51 (RN-51), mais ao norte. Ela vai a San Antonio de Los Cobres e, de lá, ao Passo Sico, na fronteira com o Chile. Essa estrada não nos decepcionou, apesar de alguns trechos com pavimento defeituoso. As paisagens eram sempre interessantes e chegamos a 4.080 metros de altitude no passo Abra Blanca.

Cuidado, vicunhas!

Viajando pelo noroeste da Argentina, era comum vermos vicunhas (Vicugna vicugna) à beira da estrada. A vicunha, o menor dos quatro camelídeos andinos (os outros três são a alpaca, o guanaco e a lhama), vive acima dos 3 mil metros de altitude. É bastante comum tanto nessa parte da Argentina como nas regiões montanhosas da Bolívia, do Chile e do Peru.

Mas nem sempre foi assim. Como a fina pelagem da vicunha tem alto valor comercial, esses animais foram caçados até quase a extinção na década de 1960. Depois disso, os países andinos proibiram a caça e a comercialização de produtos obtidos das vicunhas; e as populações começaram a se recuperar. Às vezes, esses animais atravessavam repentinamente a estrada à nossa frente. Tínhamos de ficar muito atentos para não atropelar um deles.

San Antonio de Los Cobres

San Antonio de Los Cobres, na província de Salta, Argentina
San Antonio de Los Cobres: cidadezinha a 3.760 metros de altitude na Puna Argentina

San Antonio de Los Cobres é uma cidadezinha de 6 mil habitantes no altiplano argentino, ou Puna, a 3.760 metros de altitude (765 metros mais alta que o ponto mais elevado do Brasil, o Pico da Neblina). Como sugere o nome, sua principal atividade econômica é a mineração. A região produz lítio para baterias elétricas, além de bórax, sal e outros minerais. Não vimos muitos turistas lá. Mas, no hotel onde nos instalamos, havia outros motoqueiros viajando com suas motos, todos argentinos.

A única estrada asfaltada que chega a San Antonio é aquele trecho da RN-51 vindo de Salta, por onde havíamos passado. Em qualquer outra direção, as estradas são cobertas com pedregulhos, que os argentinos chamam de “ripio” (neste blog, adoto a grafia aportuguesada “rípio”, com acento). Muitos motoqueiros brasileiros não gostam de pilotar nessas estradas de cascalho ou não têm motos apropriadas para elas. Por isso, evitam esses caminhos. Fábio e eu não tínhamos experiência em rípio, mas queríamos experimentar.

Enfrentando o rípio

Enquanto rodávamos pela RN-51, vimos viadutos e trilhos da ferrovia Huaytiquina, que liga Salta a Antofagasta, no Chile, cruzando a Cordilheira pelo passo Socompa. Essa ferrovia é usada apenas para transporte de carga, exceto um pequeno trecho onde circula um trem turístico, o Tren de Las Nubes. Ele sai de San Antonio de Los Cobres e vai até o Viaduto La Polvorilla, que se estende sobre a RN-40 a 4.220 metros de altitude. Fábio e eu decidimos fazer um passeio até esse viaduto em nossas motos. Seguimos primeiro pela RN-51, no rumo oeste e, depois, pela RN-40 rumo ao norte. Nesses trechos, as duas estradas são de cascalho.

Nossas motos Yamaha XTZ-250 Lander eram, ao menos na teoria, adequadas para esse tipo de estrada. Mas pilotar no rípio, para pilotos sem experiência como nós, mostrou-se difícil. Havia muita areia na estrada e também o que os argentinos chamam de “serrucho”, uma cobertura de pedrinhas bem pequenas e soltas. Em alguns trechos, os pneus derrapavam e as motos sambavam na pista, o que nos pareceu perigoso. Assim, depois de rodar alguns poucos quilômetros pela RN-40, desistimos de ir ao La Polvorilla e demos meia volta.

Termas de Pompeya

Para não perder a viagem, paramos nas Termas de Pompeya, que ficam perto do entroncamento entre a RN-40 e a RN-51. Não encontramos nenhuma outra pessoa nessas termas, que pareciam abandonadas, com restos de antigas construções. Havia várias fontes de água quente lá, mas nenhum poço grande o bastante para entrarmos. Assim, tivemos de nos contentar em molhar os pés. Depois, descobri que a Prefeitura de San Antonio de Los Cobres tem um projeto para implantar um centro de águas termais lá, com vestiários e piscinas.

Na volta a San Antonio, encontramos um grupo de motoqueiros argentinos retornando do La Polvorilla. Eles nos deram algumas dicas sobre como pilotar no ripio. Parece que a técnica é manter uns 50 km/h, colocar peso na roda traseira (para que a dianteira não se enterre no cascalho) e prestar atenção o tempo todo no equilíbrio da moto e na estrada. Num caminho de pedras movediças, mesmo uma distração de menos de um segundo já pode resultar num acidente. Alguns dias depois, voltaríamos a rodar sobre o rípio, subindo e descendo uma serra na Quebrada de Humahuaca, uma história que vou contar no meu próximo post.

Naquela tarde, ainda subimos a um mirante num morro perto de San Antonio de Los Cobres, de onde tivemos um belo visual da cidade e das montanhas em volta dela.

A Ruta de La Cornija

Depois de visitar San Antonio de Los Cobres, Fábio e eu retornamos a Salta pela mesma estrada pela qual tínhamos vindo, a RN-51. Era 1º de maio, 12º dia de nossa viagem. Foi uma manhã linda descendo a longa serra em direção a Salta. Contornamos essa cidade e almoçamos umas empanadas num subúrbio ao norte dela. Depois, rumamos para o trecho da RN-9 conhecido como Ruta de La Cornija, que segue para o norte em direção a San Salvador de Jujuy.

Essa é uma estradinha estreita que serpenteia ao longo de uma serra em meio a uma floresta. Alguns mototuristas evitam a Ruta de La Cornija por considerá-la perigosa. Mas não é mais perigosa que muitas estradinhas brasileiras apreciadas por motoqueiros.

Naquele dia, a Ruta de La Cornija estava tranquila e esse trecho foi bastante agradável. Foi impressionante a mudança na paisagem. Vínhamos da desértica e gelada Puna (ou altiplano) e agora percorríamos a região dos Yungas, úmida e bastante mais quente. Fizemos uma parada no Dique La Ciénega, uma represa à margem da RN-9. Como no Brasil, era feriado de Dia do Trabalho na Argentina. Vimos muitas pessoas pescando e fazendo piquenique à beira da represa, além de um cicloturista com a bicicleta carregada. Chegamos a San Salvador ao anoitecer.

Eu em San Salvador de Jujuy, Argentina
San Salvador de Jujuy: ponto de partida para a Quebrada de Humahuaca e o Atacama

No dia seguinte, começaríamos a explorar a Quebrada de Humahuaca, um vale culturalmente distinto e bastante turístico mais ao norte. Esse será o assunto do meu próximo post.

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