Atacama de moto 4 – A Cordilheira dos Andes

Prosseguindo em nossa viagem de moto ao Chile, visitamos a Quebrada de Humahuaca e as Salinas Grandes; e cruzamos a Cordilheira dos Andes para chegar a San Pedro de Atacama.

Dia 13 — San Salvador de Jujuy, Purmamarca e Tilcara – 100 km
Dia 14 — Uquía, Humahuaca, El Hornocal e retorno a Tilcara – 150 km
Dia 15 — Tilcara a Susques – 180 km
Dia 16 — Susques a San Pedro de Atacama – 282 km

Distância até aqui: 4.039 km

Rota de San Salvador de Jujuy a San Pedro de Atacama, atravessando a Cordilheira dos Andes
Enfim, o Atacama: depois de visitar a Quebrada de Humahuaca, entramos no Chile pelo Passo Jama

Depois de conhecer San Salvador de Jujuy, Fábio e eu continuamos nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama seguindo para o norte pela Ruta Nacional 9 (RN-9). Era o início de maio de 2024. Havíamos saído de São Paulo em 20 de abril, pouco depois de eu completar 61 anos e após um longo período de preparação. Tínhamos passado pelo Rastro da Serpente e pela região montanhosa de Cumbres Calcheíques, no Noroeste Argentino. Nosso próximo destino seria a Quebrada de Humahuaca, um vale bastante turístico na província argentina de Jujuy. Em seguida, atravessaríamos a Cordilheira dos Andes para chegar a San Pedro de Atacama, no Chile.

A Quebrada de Humahuaca

A Quebrada de Humahuaca, que foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco, é um antigo caminho comercial conectando o Noroeste Argentino às regiões vizinhas no Chile e na Bolívia. Por isso, tem bastante proximidade cultural com esses países andinos. A cultura local é influenciada pelas tradições indígenas, preservando costumes, festas e rituais ancestrais. Vilarejos como Purmamarca, Tilcara e Humahuaca também são conhecidos por suas feiras de artesanato, música folclórica e arquitetura colonial.

Esse vale também atrai turistas pelas suas montanhas em tons de vermelho, laranja e verde, resultantes da combinação de minerais com a escassa vegetação, além de desfiladeiros e algumas cachoeiras. O clima, lá. é árido, com grandes variações de temperatura entre o dia e a noite; e a vegetação é predominantemente de cactos e outras plantas adaptadas ao ambiente seco. É uma ótima região para viagens de carro ou de moto, já que, em transporte coletivo, perde-se muito tempo para ir de uma atração a outra. Os turistas que encontramos por lá eram principalmente europeus e argentinos.

Purmamarca

Feira de artesanado em Purmamarca, Argentina
Purmamarca: na praça central da cidade, acontece uma colorida feira de artesanado

Fizemos nossa primeira parada em Purmamarca, que é, para mim, a mais simpática das cidadezinhas da Quebrada de Humahuaca. A cidade tem ruazinhas estreitas — muitas delas fechadas aos automóveis — emolduradas pelo Cerro Siete Colores e suas encostas multicoloridas. Em volta da praça central, há muitas bancas vendendo artesanato, incluindo agasalhos feitos com lã de lhama, um animal doméstico comum nessa região.

Gostamos tanto de Purmamarca que, semanas depois, dormiríamos lá ao voltar do Atacama e aproveitaríamos para fazer algumas caminhadas. Foi nessa cidadezinha que provamos pela primeira vez as tortillas assadas na churrasqueira. Elas se parecem com pizzas fechadas, do tipo calzone, e têm recheios muito variados. Meu predileto é o de milho com queijo, que várias vezes comi em banquinhas na beira da estrada e nas cidadezinhas do Noroeste da Argentina.

Vendedor de tortillas em Purmamarca, Argentina
Tortillas argentinas: assadas na churrasqueira, elas se parecem com pizzas fechadas, do tipo calzone

Garganta del Diablo

Como base para conhecer a Quebrada de Humahuaca, escolhemos a cidade de Tilcara, 26 km ao norte de Purmamarca. Tilcara é maior que Purmamarca e tem posto de combustível (que Purmamarca não tem). Além disso, fica perto do centro da Quebrada, com fácil acesso tanto às cidades mais ao norte como às que estão mais ao sul. É uma ótima base para quem está de moto ou de carro. Nos instalamos na pousada El Convento, que tem um enorme quintal gramado. Nele, circulavam vários cachorros e gatos, além de uma lhama e uma alpaca.

Já no dia em que chegamos, fomos a pé conhecer a Garganta del Diablo, uma cachoeira no fundo de um desfiladeiro, a uns 5 km da cidade. Como fui mal agasalhado, já era fim de tarde e a cascata fica a quase 3 mil metros de altitude, passei frio lá. Mesmo assim, foi uma boa caminhada. Parte dela segue por uma estradinha (é possível chegar de carro até a entrada do desfiladeiro), e parte por trilha, sempre subindo pelo vale do rio Huasamayo. Encontramos muitos turistas na Garganta, que é uma das principais atrações de Tilcara.

Caminho à Garganta Del Diablo, em Tilcara, Argentina
Tilcara: a trilha à Garganta del Diablo, um desfiladeiro com uma cachoeira no fundo

Há outras atrações no entorno de Tilcara que não visitamos, como o Pucará, um morro com ruínas de antigas fortificações, o Museo En Los Cerros, o Jardín Botánico de Altura e a Puente de las Gárgolas. Ficaram para outra viagem.

No dia seguinte, fomos em nossas motos para Uquía, 33 km ao norte de Tilcara, para conhecer a Quebrada de Las Señoritas, um vale com formações rochosas que parecem ser interessantes. Em Uquía, porém, havia uma festa em homenagem ao santo padroeiro da cidade; e o acesso à Quebrada de Las Señoritas estava fechado. Ficamos um pouco lá, vendo uma banda de San Salvador de Jujuy tocar. Quando começaram os discursos dos políticos, partimos para Humahuaca, mais ao norte.

Humahuaca e El Hornocal

Passamos por Humahuaca e seguimos diretamente para a principal atração turística do município, o Cerro Hornocal ou Cerro Catorce Colores. Esse segundo nome parece ser uma provocação a Purmamarca, com seu morro que tem “apenas” sete cores.

As faixas coloridas no Cerro Hornocal resultam da sobreposição de diferentes camadas sedimentares ricas em minerais, formadas ao longo de milhões de anos. Movimentos tectônicos e a erosão expuseram essas camadas, criando um contraste entre tons de vermelho, verde, amarelo, laranja e branco. Cada cor indica a presença de um mineral diferente, como o óxido de ferro (vermelho), cobre (verde), limonita (amarelo) e argilas, que se acumularam em épocas geológicas distintas.

Para chegar ao mirante do Hornocal, subimos uma serra pela Ruta Provincial 73 (RP-73), que é coberta com pedregulhos, ou rípio (neste blog, adoto a grafia aportuguesada, com acento), nesse trecho. Alguns dias antes, Fábio e eu tínhamos nos sentido inseguros rodando no rípio solto perto de San Antonio de Los Cobres, onde as motos sambavam perigosamente. Em Humahuaca, porém, o chão estava um pouco mais firme e percorremos os 24 km sem incidentes, ainda que eu tenha me sentido um tanto tenso. Acho que eu estava começando a me acostumar com aquele piso movediço.

O mirante do Hornocal fica a 4.350 metros sobre o nível do mar; e deu para sentir a altitude. Descemos por uma trilha até um ponto mais abaixo. Na volta, subi com a respiração ofegante, relembrando meus tempos de escalador de alta montanha. Embora o percentual de oxigênio no ar não dependa da altitude, quando se sobe, a redução na pressão atmosférica provoca uma diminuição proporcional na oferta de oxigênio para o corpo. O resultado prático é que, a 4.350 metros de altitude, há 40% menos oxigênio disponível para o corpo do que ao nível do mar.

Mirante do Hornocal ou Cerro Cuatorce Colores, na privíncia argentina de Jujuy
Hornocal ou Cerro Catorce Colores: montanha colorida a 4.350 metros de altitude

Do mirante do Hornocal, parte uma rota de aventura que parece ser muito atraente, mas que não percorremos. Ela segue para oeste pela RP-73 e, depois, para o sul por outras estradinhas não pavimentadas, passando por vários passos a mais de 4 mil metros de altitude.

Esse caminho dá acesso aos vilarejos de Santa Ana, Caspalá, Valle Grande, Pampichuela e San Francisco. Depois, com o nome de Ruta Provincial 83, desce a serra por dentro do Parque Nacional Calilegua e chega à cidade de Libertador General San Martín, já na região úmida conhecida como Yungas. Algumas semanas depois, eu sofreria um grave acidente ao subir essa serra por dentro do parque num dia de neblina e garoa. Mas isso é assunto para outro post.

Depois de visitar o mirante do Hornocal, retornamos a Humahuaca descendo a serra pela estradinha de rípio com suas belas paisagens. Paramos no centro da cidade, onde há uma grande escadaria de pedra que leva a um conjunto de monumentos e a um pequeno museu no alto de um morro. Vimos um grupo de umas 40 mulheres que pareciam ser turistas. Elas subiram as escadas abraçadas, formaram uma roda no alto do morro e iniciaram uma espécie ritual. Até hoje não sei exatamente de que se tratava — talvez uma viagem para celebrar a sororidade feminina ou algo assim.

Salinas Grandes

A Ruta Nacional 52 (RN-52) — que conecta Purmamarca, na província argentina de Jujuy, ao Passo Jama, na fronteira com o Chile — é uma estrada de paisagens impressionantes. Fábio e eu começamos a percorrê-la em nosso décimo-quinto dia de viagem de moto rumo ao Deserto de Atacama. Vindo de Tilcara, ao norte, pela RN-9, entramos na RN-52 em Purmamarca. A partir daí, passaríamos a rodar em meio às grandes montanhas da Cordilheira dos Andes, ganhando altitude aos poucos.

Seguindo no rumo oeste, percorremos o vale de Lipán entre montanhas coloridas e muitos cardones, os cactos gigantes típicos da região. Em seguida, subimos a Cuesta de Lipán, um trecho de serra com muitas curvas que nos levou a um passo de montanha a 4.170 metros de altitude. Depois, descemos gradualmente pelo Vale de La Soledad em direção às Salinas Grandes, uma enorme planície coberta de sal a 3.450 metros de altitude.

A RN-52 atravessa o salar sobre um aterro que me lembrou a travessia da Represa Billings pelas rodovias Anchieta e Imigrantes, que ligam São Paulo a Santos. Nos dois extremos desse aterro, há núcleos turísticos com estacionamentos e barraquinhas vendendo bebidas e comidas (incluindo as deliciosas tortillas assadas na churrasqueira, típicas do Noroeste Argentino). Nesses lugares, há também rampas com portões que dão acesso à superfície do salar. Para entrar de carro ou de moto, é preciso contratar um guia, que segue à frente dos turistas em sua própria moto. Foi o que fizemos (veja a foto inicial desta página).

No comboio, éramos quatro: Fábio, eu, a guia Nahir e o Luiz, motoqueiro de Buenos Aires que viajava sozinho numa Honda Transalp. Nahir nos mostrou os poços cavados para a extração comercial do sal. Ela também nos ajudou a fazer fotos interessantes aproveitando a ausência de perspectiva na ampla superfície plana. Dias depois, repetiríamos essa diversão fotográfica no Salar de Uyuni, na Bolívia. Foi inusitado e divertido pilotar a moto sobre o sal. É um passeio que recomendo para quem estiver viajando de moto nessa região.

O Triângulo do Lítio

A maioria dos motoqueiros que percorrem essa rota segue diretamente de Tilcara a San Pedro de Atacama, no Chile. Mas Fábio e eu avaliamos que seria um desperdício passar com pressa por um lugar tão bonito. Optamos por dividir esse trecho em duas partes, com pernoite na cidadezinha de Susques. Assim, poderíamos aproveitar melhor a paisagem e as atrações ao longo do caminho.

Deixando as Salinas Grandes, a RN-52 segue por um trecho de longas retas, atravessa um desfiladeiro conhecido como Angosto de Las Burras e avança até encontrar mais uma serra. Subindo-a, chegamos a Susques, a 3.900 metros de altitude. Para nossa surpresa, os hotéis da cidadezinha estavam lotados com funcionários de mineradoras e uma equipe de filmagem que estava rodando um documentário lá.

Acabamos nos hospedando uns dois quilômetros adiante, num hotel à beira da estrada em que ocupamos o último quarto disponível, montado numa estrutura de contêineres. Chegamos lá no meio da tarde e Fábio foi fazer uma caminhada. Eu fiquei no hotel, aproveitando o acesso à internet para realizar algumas tarefas online e telefonar para minha esposa.

Saindo de Susques, a RN-52 sobe suavemente pelo planalto no rumo oeste, cruza mais um passo de altitude e desce novamente, primeiro para sudeste e, depois, para o sul, até encontrar uma passagem conveniente no Salar de Olaroz. Estávamos na região conhecida como Triângulo do Lítio, que inclui áreas da Argentina, da Bolívia e do Chile de onde se extrai esse mineral.

No Salar de Olaroz, a 3.900 metros de altitude, fica a maior mina de lítio da Argentina. A mina se estende por uma área de 63 mil hectares e tem reservas equivalentes a 1,2 milhão de toneladas desse mineral. Uma das donas dessa mina é a Toyota, que usa o lítio para a fabricação de baterias automotivas. O país é o quarto maior produtor mundial (atrás de Austrália, Chile e China). Além desse mineral, extrai-se também potássio do Salar de Olaroz.

No Chile, o vento nos dá boas-vindas

Deixando o Salar de Olaroz para trás, prosseguimos no rumo norte-noroeste até o Passo Jama, a 4.200 metros de altitude, na fronteira entre Argentina e Chile. No Passo Jama, as autoridades argentinas e chilenas compartilham o mesmo prédio, o que facilita os trâmites burocráticos. Nossa passagem pela fronteira foi bastante tranquila.

Placa próxima ao Passo Jama, na fronteira entre Argentina e Chile
Passo Jama: na travessía da Cordilheira dos Andes, o frio e o vento forte eram constantes

No entanto, quanto mais avançávamos para oeste, mais forte ficava o vento. Depois do passo, ele veio com força em lufadas repentinas que ameaçavam desequilibrar a moto. Minha Yamaha XTZ-250 Lander estava excessivamente carregada. As duas bolsas empilhadas sobre o banco do passageiro a deixavam bastante sensível às rajadas. Eu transportava barraca, colchonete inflável, saco de dormir, fogareiro, panela e outras coisas que acabei não usando. Numa próxima viagem de moto, pretendo levar muito menos carga.

Por causa do vento, o trecho do Passo Jama a San Pedro de Atacama acabou sendo um dos mais tensos de toda a viagem. Eu já tinha ouvido diversas histórias de motoqueiros desequilibrados por rajadas de vento. O medo de ser empurrado para fora da estrada ou derrubado era tanto que nem aproveitei a belíssima paisagem, que eu só apreciaria realmente na viagem de volta à Argentina.

San Pedro de Atacama

Após cruzar a fronteira, passamos a percorrer a impressionante Ruta 27, que serpenteia pelo desértico altiplano chileno. A estrada cruza vários passos entre montanhas, chegando a 4.830 metros de altitude em seu ponto culminante, a 58 km da fronteira. Ela atravessa a Reserva Nacional Los Flamencos e passa ao lado de diversas salinas e lagoas, em meio a interessantes formações rochosas. Com vento forte e muito frio, seguimos por essa estrada até perto do Passo Hito Cajón, a 4.480 metros de altitude, na fronteira entre Chile e Bolívia. De lá, a Ruta 27 inicia uma longa descida quase em linha reta até San Pedro de Atacama.

Perto do Passo Hito Cajón, vimos as instalações de um observatório astronômico no alto de uma montanha ao sul, possivelmente o Complexo de Pajonales, no Cerro Toco. Essa é uma das muitas instalações de equipamentos astronômicos que existem nessa região. Graças ao ar puro e rarefeito das montanhas e ao tempo quase sempre aberto do deserto, o Atacama é uma das melhores regiões do mundo para observações astronômicas.

Ao norte, o belo Vulcão Licancabur, com quase 6 mil metros de altitude, e seu vizinho Juriques, ambos na fronteira entre Chile e Bolívia, dominam a paisagem. O Licancabur é acessível por meio de uma caminhada tecnicamente fácil, embora fisicamente difícil por causa da altitude. Há uma lagoa em seu cume que, mesmo no Inverno, não congela por causa do calor geotérmico. Mas não subimos lá.

Motocicleta em frente aos vulcões Licancabur e Juriques, no lado chileno da Cordilheira dos Andes
Licancabur e Juriques: os dois vulcões sobressaem na fronteira entre Chile e Bolívia

Continuando a descida, chegamos no meio da tarde a San Pedro de Atacama, o principal centro turístico do Deserto de Atacama e base para muitos passeios na região. Abastecemos as motos e nos instalamos numa pousada. Depois, fui dar uma volta. Foi muito bom rever essa cidade, que eu já havia visitado em 2016 com minha esposa e minha filha. Falo mais sobre San Pedro em meu próximo post.

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