Depois de rever San Pedro de Atacama, prosseguimos nossa viagem de moto pelo Chile visitando Antofagasta, La Mano del Desierto e o Parque Nacional Morro Moreno.
Dia 17 — Pucará de Quitor e Garganta del Diablo — 10 km
Dia 18 — De San Pedro de Atacama a La Mano del Desierto e Antofagasta — 448 km
Dia 19 — Parque Nacional Morro Moreno — 88 km
Dia 20 — Antofagasta a San Pedro de Atacama — 320 km
Distância até aqui: 4.905 km

San Pedro de Atacama
A simpática e superturística cidade de San Pedro de Atacama, no Chile, serve como porta de entrada para algumas das paisagens mais impressionantes do deserto. Por isso, é uma espécie de ponto de encontro do mundo, com visitantes vindo de muitos países, incluindo o Brasil. Eu e meu amigo Fábio chegamos lá em nossas motocicletas depois de um longo período de preparação e de uma viagem de mais de 4 mil quilômetros por três países — Brasil, Argentina e Chile.
O deserto em torno da cidade combina cenários dramáticos — como salares brilhantes, vulcões, lagoas de altitude habitadas por flamingos e formações rochosas esculpidas pelo vento — com fenômenos naturais marcantes, como os gêiseres de El Tatio e os pores do sol no Valle de la Luna. Além disso, a altitude elevada e o céu limpo fazem da área um dos melhores lugares do mundo para observação astronômica, enquanto as cidadezinhas da região preservam a arquitetura de adobe e a cultura andina.

Eu já havia visitado essa região em 2016 com minha esposa e minha filha. Naquela ocasião, nós alugamos uma caminhonete na cidade de Calama e passeamos pelo Deserto de Atacama durante uma semana, usando San Pedro como base. Fomos a lugares distantes como o Salar Piedras Rojas, ladeado por rochas vermelhas como sugere o nome, e chegamos bem perto do Passo Sico, na fronteira com a Argentina.
Também acordamos de madrugada para ver os gêiseres de El Tatio em ebulição ao nascer do sol e nos banhamos em suas águas termais. Com nossa caminhonete, ainda exploramos estradinhas de montanha distantes dos roteiros das vans de turismo. Assim, rever San Pedro, agora pilotando minha moto, me trouxe ótimas lembranças.
O Pucará de Quitor
Fábio também já conhecia bem o entorno de San Pedro. Por isso, não tínhamos a intenção de ficar muito tempo na cidade nesta vez. Ainda assim, no dia seguinte (o 17º de nossa viagem de moto ao Chile), fomos ao Pucará de Quitor, uma antiga fortaleza construída por povos indígenas atacamenhos no século XII, que eu já havia visitado em 2016.
Erguido numa colina com muros de pedra e passagens estreitas, o local servia para defesa contra invasores e para controlar rotas do deserto. Séculos depois, tornou-se palco de confrontos durante a expansão do Império Inca na região. Hoje, suas ruínas permitem entender como essas sociedades organizavam sua proteção e seu território, além de oferecer uma vista panorâmica do vale e das paisagens áridas do deserto.
Subindo nesse morro, eu ficava lembrando da minha filha, em 2016 (na época, com 11 anos de idade), cantarolando e saltitando pela trilha. Foi uma lembrança muito agradável.
Outra Garganta Del Diablo
Do Pucará, Fábio e eu seguimos para a Garganta Del Diablo. Vale notar que já havíamos visitado um lugar com esse mesmo nome na Quebrada de Hamahuaca, na Argentina. É um daqueles topônimos que se repetem em muitos lugares, como Cachoeira do Véu da Noiva, Praia Grande e Rio Verde. Em San Pedro, a Garganta é um desfiladeiro percorrido por uma trilha de mountain biking. É uma trilha fácil, já que é toda plana, e passa por lugares impressionantes.

No final da trilha para bicicletas, pode-se subir a pé a um mirante para ter uma visão panorâmica da área. Minha recomendação para quem vai visitar a Garganta é que alugue uma bicicleta em San Pedro e vá pedalando. Nós fomos de moto até a portaria e andamos a pé pelo desfiladeiro, mas o passeio de bicicleta parece ser muito mais divertido.
Depois de duas noites em San Pedro de Atacama, seguimos para Antofagasta. Mas, antes, deixamos contratada uma excursão turística de quatro dias ao Sul da Bolívia, que faríamos quando retornássemos a San Pedro.
La Mano Del Desierto
Às vezes, um objetivo não tem importância prática, mas serve como uma baliza indicando o rumo a seguir e um marco de que atingimos nossa meta. Em nossa viagem de moto ao Deserto de Atacama, Fábio e eu escolhemos como objetivo a escultura Mano del Desierto, do artista chileno Mario Irarrázabal (o mesmo artista que criou a Mano en La Arena, em Punta del Este, no Uruguai).
A Mano del Desierto (que está na foto inicial desta página) foi construída em 1992. Tem 10 metros de altura e o formato de uma mão saindo da terra, como sugere o nome. Fica 70 km ao sul da cidade de Antofagasta, ao lado da Ruta 5, a Carretera Panamericana, que percorre o Chile desde Arica, perto da fronteira com o Peru, até a Ilha de Chiloé, no sul do país. Nós visitamos essa escultura em nosso 18º dia de viagem.
Naquele dia, saímos cedo de San Pedro de Atacama rumo a Calama, a noroeste, pela Ruta 23. Essa estrada margeia o Vale de La Luna, uma das principais atrações turísticas de San Pedro, e sobe uma serra com belas paisagens. Depois, passa a transitar por terrenos mais planos e, já perto de Calama, atravessa uma grande central de energia eólica. Esse é um trecho que eu já havia percorrido, oito anos antes, de caminhonete.
De Calama a Antofagasta, agora no rumo sudoeste, a estrada se torna movimentada e monótona. Uma opção mais cênica seria, possivelmente, seguir para Tocopilla, a noroeste de Calama, pela Ruta 24; e, de lá, ir a Antofagasta pela Ruta 1, que acompanha o litoral. Mas não fizemos isso. Ficou para a próxima viagem que fizermos à região.
Contornamos Antofagasta pela Carretera Panamericana, atravessando uma área industrial bastante feiosa. Na Mano del Desierto, encontramos outros motoqueiros, a maioria brasileiros, todos querendo estacionar as motos em frente à grande mão e fazer algumas fotos para publicar nas redes sociais. Alguns levavam bandeiras do Brasil. Fizemos nossas fotos (incluindo a que aparece no alto desta página) e a sensação foi de ter atingido nosso objetivo. Desse momento em diante, começaríamos o longo retorno ao Brasil.
Conversamos um pouco com os outros motoviajantes e seguimos para Antofagasta, uma cidade maior e mais movimentada do que eu esperava. Para ver o pôr do sol sobre o Pacífico, paramos no Muelle Histórico, um antigo cais convertido numa espécie de museu de equipamentos portuários a céu aberto. Havia muitos lobos marinhos lá, alguns deles sobre a calçada, ao lado da movimentada avenida beira-mar. Depois de nos instalar no nosso hotel, ainda fomos jantar na unidade local da Cervecería Kunstmann, onde comi um ótimo ceviche.

Parque Nacional Morro Moreno
O Parque Nacional Morro Moreno fica numa península 65 km ao norte de Antofagasta. Tem 7.313 hectares e uma paisagem montanhosa marcada pelo contraste entre o deserto e o Oceano Pacífico. Fomos visitá-lo de moto em nosso 19º dia de viagem. No caminho, paramos num mirante para observar La Portada, um arco de pedra sobre o mar que é o principal “cartão postal” de Antofagasta. No mirante há um enorme letreiro formando o nome da cidade (algo que já se tornou comum no Brasil e em outros países). Em Antofagasta, uma escadinha dá acesso a uma plataforma de onde se pode fotografar o letreiro com o mar ao fundo.

Continuando pela estrada B-440, passamos por um grande cemitério de animais de estimação. Aparentemente, muitos tutores usam as casinhas de seus cães e gatos como lápides para os bichos enterrados embaixo delas. O clima desértico evita que a madeira se deteriore. A estrada asfaltada acompanha praias com dunas, ziguezagueia por um trecho de morros e chega ao Balneário Juan López, um núcleo urbano à beira do Pacífico. De lá, uma estradinha de rípio leva à entrada do parque, onde um guardaparque bastante simpático nos recebeu. Éramos os únicos visitantes naquele dia.
Estacionamos as motos no final da estradinha e saímos caminhando. Primeiro subimos por uma trilha íngreme até um mirante na encosta de um morro. Depois de descer de lá, continuamos por um caminho em curva de nível até o Mirador de La Aguada, de onde se vê uma nascente numa falésia à beira-mar — algo raro naquela região desértica.
No caminho, há alguns sítios arqueológicos com vestígios deixados por antigos habitantes do local. Há, também, uma trilha que leva ao cume do morro que dá nome ao parque. Mas, quando estivemos lá, essa caminhada estava fechada ao público. Existe ainda um acesso ao parque pela estrada B-430, que leva à praia Bolsico, onde há uma base de mergulho oceânico. Mas não fomos lá.
Voltamos a Antofagasta bastante cansados no final da tarde; e ainda paramos novamente para ver o pôr do sol no cênico Muelle Histórico. No dia seguinte, retornamos a San Pedro de Atacama pelo mesmo caminho que havíamos percorrido na ida e dormimos mais uma noite lá. Na manhã seguinte, deixamos as motos e parte da nossa bagagem na pousada; e partimos para a excursão pelo sul da Bolívia que havíamos contratado anteriormente. Mas a Bolívia é assunto para o próximo post.